sábado, 27 de setembro de 2014

Viajando sozinha pela China; impressões sobre o gigante asiático

A globalização tem seus lados positivos, mas seu lado mais cruel é colocar padrões mundiais em coisas que deveriam permanecer locais. Lembro-me de quando cheguei à Europa pela primeira vez, para morar por um semestre na Espanha. Tinha 23 anos e esperava ver um mundo diferente. Minha empolgação murchou ao sair do aeroporto de Madrid e pegar o ônibus até Pamplona: nas ruas os outdoors eram semelhantes aos de São Paulo; nos supermercados e nas farmácias, a maioria dos itens eram iguais aos que eu comprava no Brasil.
Templo do Céu, um dos cartões postais de Pequim
Ao chegar à China, a frustração não foi tão grande, mas, principalmente, Pequim e Xangai não se revelaram um mundo completamente diferente do que estou acostumada. Talvez porque sejam metrópoles. Talvez porque a abertura daquele país esteja levando-o a uma ocidentalização. O mais parecido com o que eu imaginava foi Xi'An. Lá eu penei para sacar a cidade e passei por alguns perrengues.
O Pagode do Grande Ganso Selvagem em Xi'An pouco antes do show de águas e luzes
É claro que os costumes locais da China são particulares. Não é comum nos países do ocidente escarrar na rua, nem cuspir. Também não comemos com palitinhos, não fazemos as necessidades físicas de cócoras e nosso trânsito (mesmo nos lugares mais caóticos) são megaorganizados em comparação com os das cidades chinesas. Até os espertinhos brasileiros respeitam mais as filas que os chineses em geral.

Uma das coisas que me chamou a atenção foi a quantidade de carros muito bons. Nas ruas de todas cidades que visitei, praticamente não circulavam veículos velhos (acho que o único foi o que me buscou para o passeio à muralha). BMWs, Audis, Land Rovers e Tiguans são vistos aos montes. Não sei dizer quanto um carro destes custa na China, mas nesta quantidade nunca vi nem nos Jardins, na Vila Nova Conceição ou em Alphaville, para ficar nos bairros paulistas de classe alta.

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Nas ruas das quatro cidades que visitei, os carros dividiam espaço com moto, com tuk-tuks (uma espécie de moto-táxi), scooters e bicicletas. Há faixas exclusivas para ônibus que funcionam bem. Já os tuk-tuks não respeitam absolutamente nenhuma das regras, inclusive trafegando na contramão.

O trânsito é uma bagunça e atravessar as ruas se torna a coisa mais difícil e perigosa a se fazer na China. O sinal verde para os pedestres não significa que a pessoa pode atravessar tranquilamente, porque parte do cruzamento está com sinal verde pros carros. Com o tempo você se acostuma e descobre que o melhor é atravessar quando achar que dá, ainda que não seja permitido — não sei se pedestre toma multa por causa disto. Se ficar inseguro, fique perto dos chineses e os siga.
Outro aspecto que observei em todos os lugares por onde passei foi o tipo de prédios. Olhando de fora todos parecem ser muito semelhantes no tipo de apartamento. Tudo de classe média, muitos com varandas (que eles usam para colocar varal), equipamentos de ar-condicionado para fora e regiões com várias aglomerações de uns dez ou mais edifícios iguais — sem piscina, porque chinês independentemente do calor que faça não frequenta. Aparentemente, a explicação é que pele morena remete a trabalhador do campo, uma “classe inferior”.

As cidades chinesas que visitei são muito limpas. Não se vê papel ou qualquer tipo de lixo na rua, parte devido à grande quantidade de lixeiras (com duas repartições: lixo orgânico e lixo reciclável) espalhadas por todos os cantos. Em praticamente todos os quarteirões também existem banheiros públicos e eles são bastante limpos. O vaso sanitário é turco, ou seja, um buraco no chão, e se fica de cócoras para fazer as necessidades. O papel higiênico, quando tem, fica na entrada no banheiro. Sempre é bom levar lenço para caso não tenha disponível. No começo, nós, ocidentais, podemos estranhar, mas, depois de algumas tentativas, dá para “pegar o jeito” e isto deixa de ser um problema — é até mais higiênico.
Que a China tem muitos habitantes você já sabe. Mas impressiona a quantidade de turistas domésticos. São grupos e mais grupos de chineses viajando aos pontos históricos do país. Em Pequim, não existe tirar aquela foto linda sem ninguém passando. Nas atrações, chegue cedo e, mesmo assim, cruzará com uma infinidade de pessoas. Nos feriados, pelo o que li, os lugares ficam insuportáveis de tanta gente.

Contudo, apesar desta quantidade, como as calçadas das ruas de cidades como Pequim e Xangai são largas, elas não ficam abarrotadas. E todas contam com sinalização para cegos e são adaptadas para cadeirantes, muito melhores que em muitas cidades europeias ou dos Estados Unidos. Inexplicavelmente não há fila nos guichês para comprar tíquete de metrô ou para passar no detector de metal — os vagões são sardinha em lata, claro.
Cidade Proibida lotada mesmo em uma terça-feira chuvosa de setembro

A maior barreira está no idioma. À parte de Pequim, onde muitas pessoas entendem ou falam o básico de inglês, além de serem muito atenciosas com os turistas, nas demais cidades que eu visitei ninguém falava. Isto, no entanto, não chega a ser uma dificuldade se você se vira bem com mapas, mímicas e a cidade tem metrô. Digo isto porque faz muita diferença ter de se comunicar para pegar táxi (mesmo levando cartão com a explicação em mandarim de onde quer ir). Sempre que a cidade tiver metrô opte por este meio de transporte, mas não se esqueça de que as distâncias entre as estações são enormes. Aliás, sapatos confortáveis são fundamentais, porque tudo é longe. Ainda que no mapa os pontos pareçam perto, pode ter certeza de que estão longe. Andar dois quilômetros é o básico.

É por causa da barreira linguística que poucas pessoas viajam sozinhas ou ficam sem guia turístico local, principalmente, nas cidades menores. Muitos dos estrangeiros com quem conversei ficaram espantados ao saber que eu estava só. Já em Pequim é mais comum.

A única cidade onde passei por uns perrengues foi Xi’An, mas de resto foi bem tranquilo. Me virei fazendo mímica, apontando ou na intuição mesmo. Não é um bicho de sete cabeças. Não peguei guia local para me acompanhar nas cidades, mas optei por excursões para ir à muralha e aos Guerreiros de Terracota, mas mais porque gostaria de ir a uma parte mais remota da muralha e porque Terracota fica a pouco mais de uma hora de Xi'An.
É impressionante a visão que se tem ao entrar no galpão principal onde está o exército de Terracota
A China não é perigosa e nem dá a sensação de que seremos assaltados. Todos os lugares nos quais pesquisei antes de embarcar contavam que as leis são muito severas, tornando crimes contra turistas algo raro. De fato, andei bastante tranquila com minha câmera fotográfica. Óbvio que, como toda brasileira, evitava ruas escuras e estava sempre alerta — acho que viver em São Paulo nos deixa assim. Além disto, em toda estação do metrô é preciso passar por detector de metal e colocar bolsa e sacolas no raio-X (impressionante que não tem fila), assim como nos pontos turísticos. Nunca fui tão apalpada como nos dias da China. Nos aeroportos, chegam a ser mais severos que nos Estados Unidos.

Eu não me arrependo de ter ficado dias além do trabalho por minha conta. Pelo contrário, amei a experiência e, com certeza, voltaria para China. Espero ter oportunidades, porque ainda tenho muito o que aprender sobre o gigante asiático que quer conquistar o mundo!

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